The Ghost Writer (2010), o mais recente trabalho cinematográfico de Roman Polanski, retrata que nem sempre essa relação entre cliente e contratado se dá de forma tranquila, especialmente em “altos escalões”. O filme, ficção adaptada do romance literário O fantasma, de Robert Harris, conta a saga de um escritor-fantasma contratado para escrever as memórias de um primeiro-ministro britânico, envolvido em supostos crimes contra a humanidade. Polanski consegue mostrar as relações, às vezes conflituosas, repletas de incertezas e inseguranças no trabalho literário do ghost writer, além de criar um belo thriller.
No filme, o autor-fantasma é contratado por uma cifra bem convidativa, algo próximo a meio milhão de reais. Na vida real, o ghost writter brasileiro cobra conforme o trabalho solicitado, que não fica por menos de R$ 5 mil. Ele conta em seu site que trabalha silenciosamente, recebe sua remuneração profissional e depois desaparece para sempre (daí a designação de fantasma), mantendo inviolável o segredo de sua participação na obra. “A propriedade intelectual da obra fica para a pessoa que o contratou e pagou seus serviços. Ninguém, absolutamente ninguém, fica sabendo que ela utilizou os serviços de um escritor fantasma. É ela que assina o trabalho, que recebe os respectivos direitos autorais, que desfruta da fama e da glória que a obra possa render. O ghost writer, como todo fantasma que se preze, é um personagem discreto, não gosta de aparecer e prefere ficar no anonimato. Ninguém fica sabendo que foi ele que preparou o texto”, garante. O único trabalho que não aceita é a redação de trabalhos escolares ou teses universitárias, além de se recusar a usar nos textos expressões pornográficas, de baixo calão, ofensivas ou depreciativas a pessoas, raças ou grupos humanos.
A precaução é justificada. Segundo trabalho publicado em 2007 pela Faculdade de Medicina de Itajubá (MG), através da pesquisadora Maria Christina Anna Grieger, a venda de trabalhos científicos por ghost writers tem colocado em risco a produção científica nas universidades. Na área da saúde, por exemplo, fraudes na produção científica não são situações raras. Para analisar a dimensão desse comércio, a pesquisadora selecionou 18 sites nacionais que oferecem serviços de elaboração de artigos científicos, monografias, dissertações e teses. O resultado mostrou que das 18 empresas consultadas, dez (55%) responderam aceitando a encomenda mediante pagamentos que variaram entre R$ 200,00 e R$ 1.200,00. “Do ponto de vista ético, parece inquestionável a falha de caráter do pesquisador que se utiliza desse meio para sua produção científica”, explica Maria Christina.
A história mostra que nem todos os escritores-fantasmas estão preparados para desaparecer, para viver nas sombras. Em Budapeste, o protagonista é confrontado o tempo todo com perguntas como: “O que faz você pensar que crescer na sombra enobrece?”. Ele se defende: “A literatura não precisa se exibir”. As pressões familiares também ficam evidentes. A mulher de Costa confronta: “E você? Você diz que escreve tanto, mas eu nunca vi seu nome em lugar nenhum. Não sei o que responder quando perguntam o que meu marido faz. Meu querido, se você já editou um livro, não me chamou para o lançamento”, debocha.
Alguns casos ficaram conhecidos do grande público, tendo seus “fantasmas” revelados. Entre eles, Theodore Sorensen, o ghost writer do ex-presidente americano John Kennedy. Barbara Feinman seria a autora de Tarefa de uma aldeia e outras lições que as crianças nos ensinam, de Hillary Clinton. Muitos acreditam que Truman Capote era o ghost writer de O sol é para todos, livro de Harper Lee que recebeu o consagrado Prêmio Pulitzer. George Lucas teria utilizado os serviços de Alan Dean Foster para escrever sua famosa saga Star Wars. No Brasil, o português Francisco Gomes da Silva, o “Chalaça”, foi o ghost writer de D. Pedro I, escrevendo discursos, textos para jornais etc. Clarice Lispector também flertou com o anonimato e teria sido a ghost writer da atriz Ilka Soares. O caso mais recente é o de Jorge Tarquino, suposto escritor-fantasma de O doce veneno do escorpião (2005), sucesso de Raquel Pacheco (mais conhecida como Bruna Surfistinha), que vendeu mais de 300 mil cópias, e estreia versão cinematográfica em 2011, tendo a atriz Debora Secco como a ex-garota de programa.©
Embora nunca receba as glórias por seu trabalho, o que o escritor-fantasma deseja mesmo é ser fantasma, ser invisível, ficar na sombra de suas letras, um herói anônimo, senhor absoluto do seu próprio respeito, assim como foi o Escritor Desconhecido da Hungria. O resto? O resto é silêncio, bronze e pássaros grulhando em volta.©
Kelly de Souza
